Em 26 de janeiro de 1970, George Harrison lançou em compacto My Sweet Lord e, sem alarde, mudou o eixo espiritual da música pop. Recém-saído do colapso dos Beatles, Harrison não queria provar nada a ninguém, desejava apenas cantar aquilo em que acreditava. O resultado foi uma canção que misturava devoção cristã e hindu, mantra e refrão, slide guitar e coral gospel, sem pedir licença ao mercado nem às ortodoxias religiosas.
My Sweet Lord soava como uma prece disfarçada de hit. O “hallelujah” encontrava o “hare krishna” com naturalidade rara, e a produção de Phil Spector, ainda no auge, envolvia tudo em uma névoa grandiosa, quase celestial. Era a espiritualidade tratada não como discurso, mas como experiência sonora, repetitiva, hipnótica e sincera. Harrison finalmente ocupava o centro, não como Beatle renegado, mas como artista completo.
Cinco décadas depois, a canção permanece viva porque não pertence a uma época específica. My Sweet Lord é menos sobre religião e mais sobre busca. O desejo humano por sentido, por transcendência, por algo além do ruído cotidiano. Naquele janeiro de 1970, George Harrison abriu um caminho onde o rock podia ajoelhar sem perder a grandeza.