Janeiro parecia consagrador para Sienna Rose. Três de suas faixas figuravam entre as mais virais do Spotify, embaladas por um soul delicado com nuances de jazz. A principal delas, Into the Blue, ultrapassou a marca de cinco milhões de execuções em poucas semanas. Tudo indicava o surgimento de uma nova promessa da música contemporânea.
O detalhe inquietante: há fortes indícios de que Sienna Rose nunca tenha existido.
A suspeita ganhou força após o Deezer, plataforma que investe em sistemas de detecção de músicas criadas por inteligência artificial, afirmar que diversas canções atribuídas à artista foram identificadas como conteúdo gerado por computador. A partir daí, o que parecia apenas uma carreira meteórica começou a revelar fissuras difíceis de ignorar.
Não há registros de shows, entrevistas, vídeos ou aparições públicas. Sienna Rose não mantém redes sociais ativas e, em um intervalo de pouco mais de dois meses, lançou cerca de 45 faixas nas plataformas digitais, uma produtividade que desafia até os artistas mais prolíficos da história. Até Prince, símbolo de criatividade incessante, teria dificuldades para sustentar esse ritmo.
As imagens associadas à cantora também chamam atenção. Fotos com iluminação etérea, traços perfeitos e expressões quase idênticas reforçam a estética artificial típica de geradores de imagem por IA. Nada parece espontâneo. Nada parece vivido.
Musicalmente, o repertório evoca referências claras: algo entre Norah Jones e Alicia Keys, com vocais suaves, guitarras jazzísticas e climas introspectivos. Mas ouvintes mais atentos apontaram ruídos estranhos em algumas faixas, um silvo constante, quase imperceptível, presente em músicas como Under the Rain e Breathe Again. Trata-se de um “artefato” comum em produções feitas por softwares como Suno e Udio, que partem de ruído branco antes de moldar a canção.
Segundo o pesquisador Gabriel Meseguer-Brocal, do Deezer, esses pequenos erros funcionam como impressões digitais. Não são facilmente audíveis, mas podem ser identificados matematicamente e até indicar qual programa foi utilizado na criação da música.
Para além da técnica, há sinais mais subjetivos. Letras genéricas, padrões rítmicos irregulares e uma voz que nunca improvisa ou se arrisca fora da melodia reforçam a sensação de “vale da estranheza”, quando algo parece bonito e correto, mas estranhamente vazio. “Gostei da música, mas senti que faltava alma”, resumiu um crítico no TikTok. Outros relataram experiências semelhantes ao receber recomendações automáticas após ouvirem artistas reais do mesmo gênero.
Ainda assim, Sienna Rose conquistou ouvintes influentes. Selena Gomez chegou a usar uma de suas músicas como trilha de uma postagem sobre o Globo de Ouro. A faixa foi retirada do ar pouco depois, quando as dúvidas sobre a identidade da cantora se espalharam, mas o episódio ampliou o alcance da discussão.
A possível inexistência da artista provocou frustração em parte do público. Muitos se disseram decepcionados ao descobrir que músicas que os emocionaram poderiam ser fruto de algoritmos. Outros ponderaram que, sendo boa ou não, a música “funcionou”, e isso bastaria.
Mas o caso vai além de um nome viral. Ele escancara um dilema que já atravessa a indústria musical. Plataformas como o Deezer estimam que mais de um terço das músicas enviadas diariamente para publicação já sejam criadas por IA. Um salto vertiginoso em menos de dois anos. Os custos são mínimos, os ganhos podem ser altos e o risco artístico, inexistente.
Enquanto algumas empresas veem oportunidade, artistas reagem com preocupação. Nomes como Paul McCartney, Kate Bush e Annie Lennox já protestaram publicamente contra o uso de obras protegidas para treinar sistemas de IA. Plataformas como o Bandcamp optaram pela proibição total desse tipo de conteúdo.
No fim, a pergunta que ecoa não é apenas se Sienna Rose é real, mas o que define autenticidade em um cenário onde algoritmos já competem com emoção humana. Como disse a cantora Raye, em um discurso recente: criar música não é sobre perfeição, é sobre contar histórias, aliviar pesos e se expressar.
E talvez seja justamente isso que ainda falte às vozes artificiais: viver antes de cantar.
Ouça abaixo, Into the Blue, um dos hits da enigmática Sienna Rose.