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Há 31 anos, Raimundos fez o barulho ganhar endereço
“Lavô Tá Novo” conserva o impacto de uma banda que levou o peso das guitarras, o humor de rua e o sotaque nordestino para o centro do rock
Por Redação Rádio VB
Publicado em 03/11/2026 06:00
Música
Segundo álbum encontrou Raimundos com uma linguagem reconhecível e espaço para torná-la mais precisa (Foto: Divulgação)

O baixo de “Eu Quero Ver o Oco” ainda provoca aquela reação de reconhecimento antes que alguém abra a boca. Há riffs que funcionam como senha, e basta começar para uma sala inteira lembrar o que vem depois. Lançado em 3 de novembro de 1995, Lavô Tá Novo chega aos 31 anos como registro de um Raimundos que ampliava seu alcance sem perder o gosto pelo excesso.


O segundo álbum encontrou Rodolfo, Digão, Canisso e Fred com uma linguagem reconhecível e espaço para torná-la mais precisa. A produção de Mark Dearnley, que havia trabalhado com Black Sabbath e AC/DC, deu definição ao som do quarteto. As guitarras ganharam corpo, a bateria encontrou espaço e as mudanças de ritmo passaram a atingir o ouvinte com mais clareza. A sujeira continuava ali, agora com cada detalhe aparecendo melhor.


Peso com língua própria


“Tora Tora” apresenta a disposição física do disco. O andamento, as guitarras e a voz parecem disputar espaço numa conversa em que ninguém aceita falar baixo. Em “Eu Quero Ver o Oco”, o grupo organiza essa energia numa sequência de tensão e descarga. O baixo prepara o terreno, a narrativa acelera e o refrão encontra seu destino natural na garganta do público.

O encontro entre hardcore, metal e referências nordestinas já fazia parte da identidade da banda. Aqui, ele aparece no fraseado de Rodolfo, na divisão das palavras e no modo como uma história pode ser cantada quase aos atropelos sem perder o ritmo. O sotaque participa da composição. Dá forma ao que os instrumentos fazem.


Canisso ajuda a manter esse conjunto em movimento, com um baixo que tem presença melódica e força de condução. Fred sustenta a velocidade e as viradas, enquanto Digão trabalha riffs que precisam sobreviver tanto à precisão do estúdio quanto ao tumulto de um show. Há técnica no meio da algazarra, e ela explica boa parte da permanência dessas músicas.


Uma fresta para a melodia

“I Saw You Saying (That You Say That You Saw)”, composta por Rodolfo e Gabriel Thomaz, abre outra possibilidade dentro do álbum. A melodia vem para a frente, a guitarra ganha luminosidade e o refrão revela uma vocação pop que convive com o peso das demais faixas. O inglês do título também entra na brincadeira, com uma sonoridade que parece feita para ser repetida antes mesmo de ser compreendida.

Essa mudança de temperatura faz bem ao disco. Depois de tanta provocação, surge uma canção capaz de segurar a atenção pelo desenho melódico. O Raimundos sabia produzir impacto, mas também sabia escrever um refrão que continuasse tocando quando o volume baixasse.


O tempo também muda a escuta

Reouvir Lavô Tá Novo exige reconhecer que parte de seu humor sexual e de suas caricaturas provoca hoje um desconforto diferente. Algumas letras dependem de imagens e atitudes que a nostalgia tende a suavizar. A distância permite perceber esses limites e, ao mesmo tempo, escutar a inventividade dos arranjos e a personalidade da banda.

O disco permanece ligado a uma experiência muito concreta dos anos 1990. Aprender um riff no quarto, esperar um clipe na televisão, encontrar amigos pelo gosto compartilhado por um som. Trinta e um anos depois, “Eu Quero Ver o Oco” ainda começa e alguém procura o botão de volume. A memória reconhece o baixo. O corpo chega logo atrás.

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