O baixo de “Stacked Actors” abre o disco com uma sujeira que parece grudar nos amplificadores. A guitarra chega pesada, a voz de Dave Grohl ganha aspereza e tudo sugere uma sequência de confrontos. Mas There Is Nothing Left to Lose, lançado em 2 de novembro de 1999, logo abre outras janelas. Aos 27 anos, o terceiro álbum do Foo Fighters conserva o prazer de alternar o ataque com uma vontade quase física de deixar o ar circular.
Gravado por Grohl, Nate Mendel e Taylor Hawkins, com produção de Adam Kasper e da banda, o trabalho nasceu no estúdio montado no porão da casa de Grohl, na Virgínia. Esse ambiente doméstico ajuda a compreender a sensação de proximidade das gravações, com instrumentos com espaço próprio, arranjos que crescem sem pressa e músicos interessados em descobrir o que acontece quando permanecem tocando juntos.
“Breakout” guarda a eletricidade mais imediata, com um refrão que parece empurrar a voz para fora do corpo. “Learn to Fly” encontra outro caminho para alcançar o mesmo tamanho. Sua melodia sobe com facilidade, sustentada por guitarras que equilibram brilho e peso. Há uma clareza pop nessa composição, uma disposição para acolher o ouvinte logo na primeira passagem sem esgotar o interesse nas seguintes.
O disco além dos refrões
É entre as faixas menos óbvias que o álbum revela parte de sua personalidade. “Gimme Stitches” tem balanço e uma ironia na maneira de cantar; “Generator” faz da voz processada um elemento rítmico, encaixado no movimento da guitarra. Em “Headwires”, a repetição cria um estado de suspensão, enquanto baixo e bateria mantêm a música em deslocamento.
Hawkins e Mendel são essenciais nesse desenho. A bateria encontra força no impulso, mas também sabe aliviar a pressão. O baixo costura as mudanças e dá profundidade a passagens que poderiam se apoiar apenas nas guitarras. O resultado permite ouvir o Foo Fighters como um conjunto de decisões compartilhadas, com pequenas respostas acontecendo dentro de cada canção.
“Aurora” é o ponto em que essa escuta se expande. O motivo de guitarra atravessa a faixa como uma lembrança que muda de contorno a cada retorno. A voz se acomoda entre as camadas, a bateria amplia o horizonte e a música parece gostar do próprio percurso. Poucas gravações da banda sustentam tão bem essa mistura de movimento e contemplação.
A delicadeza também fica
“Next Year” oferece uma melancolia luminosa, dessas que fazem planos enquanto ainda olham para trás. “Ain’t It the Life” aproxima o disco de uma conversa ao fim da noite. Já “M.I.A.” encerra o álbum deixando a inquietação crescer por dentro da melodia, sem a obrigação de resolver o que veio antes.
Revisitar There Is Nothing Left to Lose é reencontrar um Foo Fighters à vontade com a própria sensibilidade. Os refrões continuam grandes, mas há espaço ao redor deles, como uma linha de baixo para acompanhar, uma guitarra que demora a desaparecer, uma mudança de intensidade que merece outro play. Vinte e sete anos depois, ainda vale ficar no porão até a última faixa.