No dia 30 de janeiro de 1972, a cidade de Derry, na Irlanda do Norte, foi atravessada por tiros que mudariam para sempre sua história, e a da música popular. Durante uma marcha pacífica por direitos civis, soldados do Exército britânico mataram 14 manifestantes desarmados. O episódio ficaria conhecido como Bloody Sunday, um ponto de ruptura nos conflitos do período conhecido como The Troubles.
Uma década depois, o U2 transformaria aquele domingo em som. “Sunday Bloody Sunday” não nasceu para consolar, e sim para acusar. A batida marcial da bateria de Larry Mullen Jr. soa como um desfile que deu errado, um passo ritmado que conduz a indignação. Bono canta sem metáforas confortáveis: “How long must we sing this song?”. Não é um refrão, é um cansaço histórico.

Registro histórico do massacre de Derry (Foto: Divulgação)
O poder da música está na recusa do ódio fácil. Apesar da raiva latente, o U2 escolhe a denúncia moral em vez do panfleto. Não é uma canção “sobre lados”, mas sobre vidas interrompidas e a violência que se normaliza quando o Estado dispara contra o próprio povo. Ao longo dos anos, Bono repetiria nos palcos que a música não é um hino rebelde, e sim um grito contra a banalização da morte.
Cinquenta e quatro anos depois, o Bloody Sunday continua presente porque a ferida nunca fechou completamente, e porque a canção segue atual. Em um mundo onde marchas ainda terminam em tiros e a verdade costuma chegar tarde, “Sunday Bloody Sunday” permanece como um lembrete incômodo. Há domingos que não acabam, e músicas que existem para impedir o silêncio.