David Byrne encontrou no repertório de declarações de Elon Musk a matéria-prima para uma nova canção. Em “Let Me Sell You a Dream”, composta com Daniel Pemberton para o documentário “Musk”, de Alex Gibney, o ex-vocalista do Talking Heads assume a voz de um personagem construído inteiramente com frases do próprio empresário. A faixa já está disponível pela Matador Records.
O procedimento tem algo de retrato por montagem: retiradas de entrevistas e pronunciamentos, as falas ganham outra cadência quando reunidas em uma letra. Autoafirmações, referências à exploração espacial e comentários sobre a própria humanidade passam a conviver numa espécie de monólogo desconcertante. A ironia nasce dessa organização. Palavras preservadas podem ganhar sentidos diferentes quando mudam de vizinhança.
Byrne explicou que preferiu investigar como Musk se apresenta ao mundo e deixar que o personagem se descrevesse. O músico preparou a letra e a melodia antes de assistir ao documentário, aceitando o convite por conhecer os trabalhos de Pemberton e Gibney.
A música combina andamento acelerado, baixo marcado e um órgão de sabor retrô. Essa disposição quase festiva cria um atrito com a estranheza das declarações: a canção convida ao movimento enquanto seu narrador oscila entre promessas grandiosas e tentativas de parecer um sujeito comum.
A técnica de escrever a partir de falas reais já apareceu em “Here Lies Love”, projeto de Byrne com Fatboy Slim sobre Imelda Marcos. Aqui, o recurso volta a explorar a distância entre uma figura pública e a imagem que ela procura construir de si mesma.
Responsável pela trilha do filme, Pemberton também participou da composição da faixa de encerramento. Gibney comemorou a colaboração e destacou a capacidade de Byrne de extrair poesia sarcástica das declarações do empresário. O diretor lembrou ainda que esteve, com a esposa, no teatro Pantages durante as filmagens de “Stop Making Sense”, o célebre registro dos Talking Heads.
“Musk” chegou aos cinemas de Nova York e Los Angeles em 9 de outubro e terá lançamento ampliado nos Estados Unidos nesta sexta-feira (16). A produção examina a trajetória e a influência do empresário.
A música também surge como possível concorrente ao Oscar de Melhor Canção Original de 2027, embora isso ainda não represente uma indicação. Por enquanto, seu efeito mais imediato está na operação musical de Byrne: colocar o discurso de Musk em circulação outra vez, agora sob um ritmo que faz a autoconfiança soar perigosamente próxima do absurdo.