Em 11 de outubro de 1996, Renato Russo morreu aos 36 anos, em decorrência de complicações relacionadas à aids. Trinta anos depois, sua ausência tem uma estranha companhia de permanência das perguntas que deixou. O tempo passou, os discos atravessaram gerações e o Brasil continua oferecendo motivos para cantar “Que País É Este” com a mesma indignação. Uma música que poderia ter se tornado documento de época permanece desconfortavelmente próxima do presente.
Antes dos grandes públicos, havia Brasília. Renato Manfredini Júnior chegou à capital ainda adolescente e encontrou ali o cenário de sua formação artística. A cidade planejada, os espaços imensos, o poder tão perto e uma juventude procurando onde fazer barulho. A geometria dos monumentos oferecia uma imagem de ordem, e o punk permitia questionar o que essa imagem escondia. Brasília entraria em sua música como experiência cotidiana, lugar de amizades, tédio, conflito e descoberta.
Em 1978, essa inquietação ganhou amplificador com o Aborto Elétrico, formado com André Pretorius e Fê Lemos. O nome já carregava uma provocação adequada àqueles anos de ditadura. Renato tocava baixo e começava a transformar o mal-estar em canções. O grupo durou pouco, mas deixou material que alimentaria os repertórios da Legião Urbana e do Capital Inicial. Naquela cena, a urgência vinha antes do acabamento. Era preciso tocar, encontrar os outros e dizer algo de relevante.
A Legião ampliou esse vocabulário. O primeiro álbum, lançado em 1985, apresentou uma banda capaz de juntar aspereza e vulnerabilidade. “Dois”, no ano seguinte, abriu espaço para narrativas, afetos e dúvidas que cabiam mal nos discursos prontos. Renato podia encarar o país e, pouco depois, descer à escala de um quarto, de uma conversa difícil, de alguém tentando amar. Essa passagem entre a vida pública e a intimidade ajuda a explicar por que tanta gente encontrou nas canções uma linguagem para assuntos que ainda não sabia formular.
“Que País É Este”, escrita em 1978 e lançada pela Legião em 1987, já carregava uma demora significativa. Atravessara o fim da ditadura sem perder o alvo. A democracia chegava, mas a pergunta continuava de pé. Corrupção, violência e desigualdade mantinham o combustível daquele ataque curto, feito para ser cantado com os dentes cerrados. A distância entre a composição e a gravação seria apenas o começo de sua longa atualidade.
Três décadas depois da morte de Renato, o refrão ainda encontra plateia porque o país segue produzindo situações que parecem pedir sua entrada. Houve mudanças, conquistas e transformações profundas nesse intervalo. Ainda assim, para quem enfrenta abandono, impunidade ou violência, a sensação de repetição pode engolir o calendário. O incômodo está aí. Reconhecer avanços e continuar ouvindo uma canção antiga como comentário imediato sobre a vida.
Também seria pouco lembrar Renato apenas como o homem da denúncia. Sua obra tem medo de perder, vontade de pertencer, ciúme, ternura e uma esperança frequentemente submetida a provas. Há nela o jovem que deseja mudar tudo e o adulto que já conhece o custo de continuar tentando. É essa convivência, às vezes contraditória, que preserva o interesse de sua escrita para além da homenagem e do coro de estádio.
Ouvir Renato Russo nesta data é voltar a uma voz que ainda interfere na conversa. A saudade pertence aos fãs, e a pergunta pertence ao país. Trinta anos sem ele, continuamos sabendo o refrão de cor, e tropeçando na resposta.