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Beck atravessa a solidão sem atalhos em “Ride Lonesome”
Primeiro álbum do músico em sete anos encontra beleza própria entre perdas, silêncios e afetos em dissolução
Por Redação Rádio VB
Publicado em 19/09/2026 16:53 • Atualizado 19/09/2026 16:54
Música
Novo álbum de Beck recupera a melancolia de “Sea Change” e “Morning Phase” (Foto: Divulgação)

Beck sempre pareceu lidar melhor com a tristeza quando deixa de tentar explicá-la. Em Ride Lonesome, seu primeiro álbum de inéditas desde Hyperspace (2019), ele volta ao território contemplativo de Sea Change e Morning Phase, mas sem simplesmente reproduzir aqueles discos. Aos 56 anos, o compositor soa menos interessado em transformar a dor em grande declaração do que em observar o que permanece depois dela.

A faixa-título abre o trabalho como uma paisagem vista pela janela de um carro em movimento. Violões, cordas discretas e uma interpretação quase resignada sustentam um disco no qual cada instrumento parece conhecer o valor do silêncio. A produção evita excessos e permite que as melodias avancem lentamente, como se Beck ainda estivesse descobrindo para onde elas desejam ir.


“Run Away” carrega uma luminosidade californiana que contrasta com seus versos desolados. É uma das marcas mais fortes do álbum: mesmo quando canta sobre partidas, fracassos e vínculos desfeitos, Beck recusa a escuridão absoluta. Sempre existe uma fresta aberta pela harmonia, um pequeno gesto musical impedindo que a canção desabe por completo.



Em “In the Night”, essa fresta quase desaparece. O violão frágil e as cordas espectrais evocam o folk noturno de Nick Drake, mas a interpretação não se reduz à reverência. Beck usa essa delicadeza para construir uma intimidade própria, povoada por lembranças que parecem desaparecer no instante em que são mencionadas.


“Failed Words” chega como uma balada esquecida em alguma estação de rádio dos anos 1970. “Bleed”, por sua vez, amplia a escala emocional: as vozes sobrepostas assumem a forma de um coral ferido, enquanto a canção abandona antigas certezas e trata o desapego não como libertação completa, mas como sobrevivência.


O disco alcança um de seus momentos mais belos em “Live Without You/Falling Through My Hands”. Sopros, harmonias próximas dos Beach Boys e uma gaita delicada acompanham a percepção de que determinados amores não terminam de uma vez — eles escapam aos poucos, mesmo quando tentamos segurá-los. A melodia tem doçura suficiente para acolher a perda, nunca para anulá-la.


“If You Don’t Know What Love Is” desloca o country-rock para uma atmosfera de fim de mundo, transformando o amor em resistência contra a brutalidade cotidiana. No encerramento, “Beyond the Light” não oferece reconciliação fácil. Funciona como uma bênção cansada depois do rompimento: seguir adiante talvez não signifique superar, apenas aprender a carregar menos peso.


Gravado com músicos ligados a trabalhos fundamentais de Beck e mixado por Nigel Godrich, Ride Lonesome reúne 12 faixas e foi lançado em 18 de setembro. O repertório oficial confirma o arco que vai da faixa-título a “Beyond the Light”; o álbum também marca a retomada da parceria com colaboradores de Mutations, Sea Change e Morning Phase.
 

Nebuloso sem se tornar indistinto, o disco exige escuta atenta. Sua força não está em alguma reinvenção sonora radical, mas na maturidade com que Beck organiza o vazio. Ride Lonesome entende que a melancolia não precisa gritar para ocupar todo o ambiente. Às vezes, basta um violão, uma voz quase quebrada e a coragem de não preencher o silêncio.

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