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Plebe Rude celebra 40 anos de “O concreto já rachou”
Marco do rock brasiliense, disco de estreia ganha relançamento com suas sete faixas.
Por Redação Rádio VB
Publicado em 20/07/2026 12:10 • Atualizado 20/07/2026 12:10
Música
Formada em Brasília, em 1981, Plebe Rude surgiu em um ambiente de efervescência cultural (Foto: Divulgação)

Quatro décadas depois de transformar as inquietações de uma geração em música, a Plebe Rude revisita um dos capítulos mais importantes de sua trajetória. Lançado em 1985, o álbum de estreia O concreto já rachou volta a ganhar destaque com o relançamento de suas sete faixas, preservando a força de um repertório moldado durante o fim da ditadura militar e o início da abertura democrática no Brasil.

Formada em Brasília, em 1981, a banda surgiu em um ambiente de efervescência cultural e rapidamente conquistou espaço ao combinar guitarras, urgência punk e letras marcadas por críticas sociais e políticas. O disco de estreia consolidou essa identidade e ajudou a transformar o grupo em um dos nomes mais representativos do chamado rock de Brasília.


Para o baixista e fundador André “X” Mueller, a longevidade da Plebe Rude revela a conexão construída com o público, mesmo sem a exposição característica de artistas do circuito comercial.


“Nós não somos de fazer propagandas, nem temos grandes hits, mas acabamos de fazer um show para 50 mil pessoas”, afirma. Segundo ele, é surpreendente observar o quanto o Brasil se transformou enquanto a banda e outros grupos alternativos surgidos nos anos 1980 conseguiram permanecer em atividade.


Cinco anos para encontrar uma identidade


Quando a Plebe Rude entrou em estúdio para gravar o primeiro álbum, Philippe Seabra ainda era muito jovem. O vocalista tinha 18 anos e completou 19 durante as sessões de gravação. Apesar da pouca idade, o grupo já acumulava um período decisivo de amadurecimento nos palcos.


Entre a fundação da banda e a chegada de O concreto já rachou, passaram-se cinco anos que, na avaliação de André Mueller, foram fundamentais para definir a linguagem, a maneira de tocar e o propósito do conjunto.


O repertório cresceu aos poucos, acompanhando também o aumento do público. Depois das primeiras apresentações em Brasília, a banda começou a tocar em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, levando para outros centros urbanos a sonoridade desenvolvida no Planalto Central.


A consciência sobre o contexto histórico também estava presente desde o início. Criados sob a ditadura, os integrantes enxergavam as composições como registros de uma época marcada pela repressão, pela censura e pelas expectativas em torno da redemocratização.


“Éramos fruto daquele tempo. Nascemos e crescemos com a ditadura, e isso se reflete tanto nas nossas composições quanto na nossa postura”, destaca Mueller.


Brasília como matéria-prima


A capital federal não foi apenas o local de nascimento da Plebe Rude, mas um elemento decisivo para a construção de sua identidade. Philippe Seabra acredita que a banda teria seguido um caminho diferente caso tivesse surgido em outra cidade.


Brasília reunia características particulares: a proximidade com o centro do poder, a atmosfera política e o contato com referências musicais estrangeiras por meio dos malotes diplomáticos. Esses fatores permitiram que os jovens músicos acompanhassem movimentos culturais que aconteciam fora do país, especialmente o punk britânico.


Embora inspirada por artistas que reagiam ao conservadorismo e às políticas da então primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, a Plebe encontrou no próprio Brasil uma fonte de indignação. A experiência de viver em uma cidade planejada para abrigar o poder político oferecia uma perspectiva diferente sobre o país.


“As músicas não vêm de um vácuo”, observa Seabra. Para ele, o disco traduziu o sentimento de uma parcela da juventude brasiliense que acompanhava de perto as contradições do período.


Shows sob o medo da repressão


Mesmo durante a abertura política, a censura ainda fazia parte da realidade dos artistas. Antes de algumas apresentações, a Plebe Rude precisava encaminhar as letras das músicas para análise e autorização.


O temor de uma intervenção policial também acompanhava os músicos nos palcos. Seabra recorda que organizava sua pedaleira de maneira que pudesse recolhê-la rapidamente caso fosse necessário deixar o local às pressas.


O vocalista reconhece que, em retrospecto, parte daquele medo poderia parecer exagerada. No entanto, ressalta que a repressão também atuava de maneira psicológica, criando uma sensação permanente de vigilância e insegurança.


Integrante da Plebe desde 2011, o baterista Marcelo Capucci acompanhou de perto o surgimento do movimento como espectador. Ele lembra que o lançamento de O concreto já rachou, assim como o primeiro álbum da Legião Urbana, foi recebido com alegria e orgulho por quem assistia ao crescimento das bandas de Brasília.


Separação, retorno e novas inquietações


A trajetória da Plebe Rude sofreu uma interrupção em 1994, quando Philippe Seabra se mudou para Nova York, nos Estados Unidos. O que parecia ser o encerramento definitivo da banda acabou se tornando um hiato de seis anos.


Ao retornar ao Brasil, Seabra encontrou uma indústria musical e uma geração com outros interesses. Inicialmente, imaginou que a redução de temas políticos nas canções poderia indicar mudanças positivas no país. Com o tempo, concluiu que os problemas continuavam presentes — o que havia mudado era a maneira como parte do mercado musical lidava com eles.


O vocalista afirma sentir falta de letras mais profundas entre os artistas de maior alcance. Em 2020, a Plebe Rude regravou “P da vida”, lançada originalmente pelo grupo Dominó, como forma de provocar uma reflexão sobre a ausência de temas mais contundentes na produção contemporânea.


Um cenário musical transformado


Para Seabra, a relação entre artistas e público mudou radicalmente. Hoje, os shows competem com inúmeras opções de entretenimento disponíveis dentro de casa, como videogames, plataformas de streaming e vídeos de apresentações de músicos de todo o mundo.


Nesse ambiente, o rock perdeu parte do protagonismo que manteve em outras décadas. Ainda assim, o cantor considera que conteúdos socialmente relevantes não podem ser impostos artificialmente. Para ele, a força de uma obra depende da autenticidade de quem a produz.


É justamente essa espontaneidade que ajuda a explicar a permanência de O concreto já rachou. Nascido da experiência de jovens músicos cercados por censura, tensão política e desejo de mudança, o disco segue dialogando com diferentes gerações.

 
Quarenta anos depois, suas rachaduras continuam abertas, não apenas como memória do rock nacional, mas como testemunho de um país cujas contradições ainda encontram eco nas canções da Plebe Rude.


 

Com informações de Isabela Berrogain — Correio Braziliense

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