No fim dos anos 1990, o Brasil vivia uma espécie de overdose radiofônica de grupos de pagode romântico. Era impossível escapar. Em qualquer esquina havia um cavaquinho meloso, letras açucaradas e coreografias ensaiadas para programas de auditório dominicais. Foi nesse cenário que os Raimundos lançaram, em 27 de maio de 1999, Só no Forévis, talvez o álbum mais debochado e contraditório de toda a trajetória da banda. Um disco que ria do mercado pop enquanto, ironicamente, tornava-se parte central dele.
Logo de saída, “A Mais Pedida” deixavam claro que o grupo de Brasília já não era apenas uma banda de hardcore nordestino barulhento surgida nos porões alternativos do início da década. O Raimundos daquele momento entendia perfeitamente a lógica da MTV Brasil, das FMs populares e da cultura de massa. Havia sátira explícita aos grupos de pagode da época, especialmente na estética exagerada, nos refrões grudentos e no flerte quase caricatural com romantismo vulgarizado. Só que tudo vinha revestido de guitarras pesadas, palavreado escrachado e humor adolescente.
O álbum parecia rir tanto do pagode quanto do próprio rock nacional, que naquele período começava a perder relevância comercial para axé, sertanejo e o pagode romântico.
A crítica ficou dividida. Parte enxergava o disco como uma repetição menos inspirada do impacto de
Lavô Tá Novo. Outra metade percebeu ali um retrato extremamente preciso do Brasil pop do final dos anos 90, um país que começava a transformar ironia em linguagem dominante na televisão, na publicidade e na música. Comercialmente, foi um sucesso gigantesco.
Hoje, Só no Forévis é visto quase como cápsula temporal de uma geração específica. Algumas letras envelheceram mal diante das discussões contemporâneas sobre machismo e humor ofensivo, enquanto outras preservam o espírito caótico e anárquico que fazia do Raimundos um corpo estranho dentro do mainstream brasileiro. O disco continua carregando essa dualidade curiosa. Ao mesmo tempo em que representa o auge comercial da banda, também marca o momento em que ela passou a ser observada menos como fenômeno alternativo e mais como espelho exagerado do entretenimento popular brasileiro no fim do século XX.