A música brasileira perde uma de suas vozes mais discretas e, ao mesmo tempo, mais presentes. Alvin L partiu aos 67 anos, deixando um repertório que se espalha por décadas, estilos e interpretações. A despedida acontece nesta segunda-feira (6), no Memorial do Carmo, no Caju, no Rio de Janeiro, com velório ao meio-dia e cremação prevista para as 15h.
Nascido em Salvador, em 1959, e registrado como Arnaldo José Lima Santos, Alvin construiu uma trajetória que nunca se prendeu a um único lugar. Começou no fim dos anos 1970, ainda sob o impacto do punk, com os Vândalos. Depois, transitou pelo new wave, pelo experimental e por bandas que hoje soam como registros de uma inquietação criativa constante. Era um artista em movimento, mesmo quando parecia quieto.
Mas foi na composição que encontrou sua forma mais duradoura de existir. Mais de 200 canções levam sua assinatura. Algumas se tornaram parte da memória afetiva de muita gente, como Eu Não Sei Dançar, eternizada na voz de Marina Lima. Outras ganharam vida com artistas como Milton Nascimento, Capital Inicial, Ana Carolina e Sandy & Junior. Cada gravação parecia ampliar um pouco mais o alcance de sua escrita.
A obra de Alvin L atravessou diferentes gerações e estilos. Suas composições também ganharam vida em faixas como “Natasha”, “Mickey Mouse em Moscou”, “Todos os Lados”, “Eu Vou Estar” e “Tudo que Vai”, para o Capital Inicial. Com Leila Pinheiro, reuniu três de suas músicas em “Na Ponta da Língua”, além de interpretações de Belô Velloso, Toni Platão e Ana Carolina, que ajudaram a ampliar ainda mais o alcance sensível de sua escrita.
Alvin escrevia como quem observa. Havia delicadeza, ironia e uma certa melancolia elegante em suas letras. Não se tratava de chamar atenção, mas permanecer em evidência com traços sofisticados de pura inspiração. Talvez por isso suas músicas continuem soando atuais, como se tivessem sido feitas para atravessar o tempo sem esforço.
A morte, segundo pessoas próximas, foi repentina. Ele era esperado para um almoço de Páscoa, mas não apareceu. Familiares o encontraram em casa, já sem vida. A suspeita é de infarto fulminante. Uma saída silenciosa, quase em desacordo com a intensidade da obra que deixa.
Nos últimos anos, Alvin também se aventurou na literatura, lançando o livro O veneno dos pequenos detalhes, em 2020. Mais uma forma de narrar o mundo à sua maneira, sempre atento aos detalhes que passam despercebidos.
Entre as muitas homenagens, amigos lembram de um homem afetuoso, irônico e profundamente ligado à vida. Não apenas à própria, mas à dos outros. Alvin L não foi apenas um compositor. Foi um ponto de encontro entre histórias, vozes e sentimentos.
E talvez seja assim que ele continue. Não como ausência, mas como música que insiste em tocar.