Em 4 de fevereiro de 1980, há exatos 46 anos, os Ramones lançavam End of the Century, o disco que mais dividiu fãs, críticos e a própria banda. Produzido por Phil Spector, o arquiteto do Wall of Sound, o álbum soava como uma colisão improvável: o punk minimalista do quarteto de Queens atravessando um corredor de ecos, pianos e camadas que pareciam grandes demais para canções de dois minutos. Para alguns, traição. Para outros, ambição. Para quase todos, um choque.
À época, a recepção foi ambígua. Parte da crítica viu ali um Ramones “domesticado”, menos urgente, quase pop demais para quem erguera um império com três acordes e zero concessões. O público respondeu melhor: End of the Century virou o disco mais vendido da banda, impulsionado por faixas como “Baby, I Love You” e “Do You Remember Rock ’n’ Roll Radio?”. Ainda assim, havia um desconforto no ar, como se a banda tivesse aceitado vestir um terno emprestado para tentar entrar numa festa maior.
Quatro décadas depois, o álbum envelheceu com dignidade e ganhou leitura nova. Hoje, End of the Century é visto como um experimento corajoso, um registro de transição que prova que os Ramones eram mais do que um manifesto de velocidade.
O verniz de Spector não apagou o coração punk, apenas o iluminou por ângulos estranhos. Entre amores tortos, reverências ao rock antigo e melodias irresistíveis, o disco atravessou o tempo como um paradoxo vivo. Controverso, sim, mas essencial para entender que até os mais radicais, às vezes, precisam testar o volume da própria lenda.