Sharon Tate Polanski completaria 83 anos neste sábado, 24 de janeiro. Ícone de uma era em que Hollywood flertava com a liberdade, a contracultura e o fim das inocências, Tate foi muito mais do que a tragédia que a eternizou. Atriz, modelo, musa do cinema dos anos 60, ela representava uma juventude solar que parecia prometer um futuro infinito, até ser brutalmente interrompida na noite de 9 de agosto de 1969, em crime arquitetado por Charles Manson.
Nascida em 1943, Sharon construiu uma carreira ascendente em um cinema que se reinventava. Atuou em filmes como A Dança dos Vampiros (1967), dirigido por Roman Polanski, com quem se casaria, além de O Vale das Bonecas (1967), obra que a consolidou como rosto da nova Hollywood. Havia nela algo raro, vulnerabilidade e glamour coexistindo sem esforço, como se o cinema a tivesse escolhido antes mesmo de ela escolher o cinema.

Sharon tate com o marido Romam Polansky (Foto: Divulgação)
A noite que mudou tudo
Grávida de oito meses, Sharon Tate foi assassinada em sua casa, em Los Angeles, junto a mais quatro pessoas, por membros da chamada Família Manson, seita liderada por Charles Manson. O crime não foi apenas um homicídio múltiplo, foi um choque civilizatório. O fim simbólico dos anos 60, do “verão do amor”, da crença de que paz, arte e liberdade bastariam para conter o lado mais sombrio da humanidade.

Charles Manson foi condenado a prisão perpétua pelo crime (Foto: Divulgação)
O caso ganhou contornos quase míticos com o passar dos anos. Em 1974, o promotor Vincent Bugliosi publicou Helter Skelter, livro que detalha minuciosamente o Caso Tate–LaBianca. O livro se tornou um dos maiores best-sellers de true crime da história, com mais de sete milhões de exemplares vendidos, ajudando a fixar o nome de Sharon Tate no imaginário coletivo, ainda que muitas vezes reduzida à condição de vítima, e não de artista.
Bugliosi expôs, além do crime, o delírio apocalíptico de Manson, que acreditava estar iniciando uma guerra racial inspirada, em sua mente distorcida, por músicas dos Beatles. A partir dali, Manson deixou de ser apenas um criminoso para se tornar um símbolo do mal contemporâneo, uma figura que a cultura pop, o cinema, a música e a literatura nunca pararam de revisitar.
A memória no cinema e na cultura pop
Décadas depois, Sharon Tate continuou a reaparecer. Não como fantasma, mas como memória em disputa. Em Era Uma Vez em… Hollywood (2019), Quentin Tarantino reimagina sua história, devolvendo-lhe a vida em um gesto quase catártico.
Interpretada por Margot Robbie, Tate surge ali como presença silenciosa, luminosa, caminhando por Los Angeles como se o futuro ainda estivesse intacto. Tarantino não reconta a tragédia: ele a nega, como quem se recusa a aceitar que o mal venceu.
Já A Maldição de Sharon Tate (2019) opta pelo caminho oposto, mergulhando na dor, na paranoia e no presságio. O filme explora o peso psicológico que antecedeu o crime, reforçando o caráter trágico que envolve sua figura até hoje.
A Família Manson, por sua vez, virou arquétipo do terror real: tema de livros, documentários, músicas, camisetas, debates acadêmicos e obsessões culturais. O caso simboliza o ponto em que a contracultura encontrou seu espelho mais distorcido, e não gostou do que viu.
O que Sharon Tate representa hoje
Sharon Tate permanece como um paradoxo. É lembrada pela morte, mas celebrada pela vida que poderia ter sido. Ela é o rosto da promessa interrompida, da Hollywood que flertava com a arte antes de ser engolida pelo espetáculo do horror real. Sua imagem atravessa gerações porque carrega algo universal, uma a sensação de que certas perdas nunca cicatrizam, apenas se transformam em mito.
Mais de meio século depois, Sharon vai além de um crime histórico. Ela é símbolo, alerta, memória. Uma estrela que não envelheceu, porque o tempo nunca teve permissão para alcançá-la.