Nesta terça-feira, 20 de janeiro, a Rádio VB relembra o nascimento de Euclides da Cunha (1866–1909), um dos intelectuais mais complexos e inquietos da história brasileira.
Engenheiro, jornalista, ensaísta e escritor, Euclides foi um homem dividido entre ciência e literatura, entre a fé no progresso e o choque brutal com a realidade brasileira. Sua vida e obra são atravessadas por tensões, e nenhuma delas se resolveu em paz.
Os Sertões: o livro que explicou o Brasil, e o feriu
Publicado em 1902, Os Sertões, para além de um clássico, é uma fratura aberta. Enviado como correspondente para cobrir a Guerra de Canudos, Euclides partiu armado de certezas positivistas e voltou devastado.
O que encontrou no sertão da Bahia desmontou sua visão de mundo. O livro nasce desse embate entre ciência e barbárie, entre Estado e povo, entre litoral e interior.
Dividido em “A Terra”, “O Homem” e “A Luta”, Os Sertões mistura geografia, sociologia, antropologia e literatura numa linguagem densa, febril, quase alucinada. É um livro escrito como se cada frase fosse uma trincheira. Nele, o Brasil deixa de ser promessa e passa a ser problema, e talvez por isso continue tão atual.
Um homem em permanente conflito
Euclides não foi apenas um observador do drama nacional, ele o viveu na própria pele. Militar expulso da Escola da Praia Vermelha por indisciplina, republicano convicto, crítico feroz das elites, viveu à margem das instituições que ajudou a pensar. Seu temperamento era intenso, obsessivo, muitas vezes autodestrutivo.
Essa instabilidade transbordou para a vida pessoal, culminando na chamada tragédia da Piedade, episódio que selou seu destino. Em 1909, ao tentar confrontar o jovem militar Dilermando de Assis, amante de sua esposa Ana de Assis, Euclides foi morto a tiros na casa do rival, no bairro da Piedade, no Rio de Janeiro.
O episódio, envolto em paixão, honra, ciúme e violência, expôs o choque entre o intelectual moderno e um código arcaico de masculinidade. Mais um Brasil dentro do Brasil.
Desejo: quando a história vira carne
Essa dimensão íntima e trágica da vida de Euclides ganhou nova leitura com a minissérie Desejo, disponível no Globoplay, estrelada por Tarcísio Meira, Vera Fischer e Guilherme Fontes.

Guilherme Fontes, Vera Fischer e Tarcísio Meira em Desejo (Foto: Divulgação)
A produção revisita o triângulo amoroso entre Euclides, Ana e Dilermando, deslocando o foco do mito para o humano. Em vez do monumento literário, vemos o homem vulnerável, ferido, contraditório.
Desejo não diminui Euclides, ao contrário, o humaniza. Mostra como o mesmo sujeito capaz de interpretar o sertão com rigor científico era incapaz de lidar com o caos emocional da própria casa. É nesse atrito que a figura de Euclides da Cunha se torna ainda mais potente e contemporânea.
Um legado que não se encerra
Euclides da Cunha morreu aos 43 anos, mas deixou uma obra que segue interrogando o país. Ele escreveu sobre um Brasil fraturado, desigual, violento, e talvez por isso nunca tenha encontrado descanso.
Ler Euclides, hoje, é encarar o fato incômodo de que o Brasil moderno nasceu em guerra consigo mesmo.
Celebrar seu aniversário, além de lembrar um grande escritor, é aceitar o convite desconfortável que ele deixou: olhar para o Brasil sem anestesia, mesmo que isso custe a própria paz.