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A despedida de uma série que sempre foi sobre crescer (e perder)
Um desfecho que transforma o terror sobrenatural em um retrato sensível sobre amadurecimento e o fim inevitável da infância.
Por Redação Rádio VB
Publicado em 03/01/2026 17:37
Entretenimento
Stranger Things se despediu de forma grandiosa e melancólica (Foto: Divulgação)

Stranger Things começou como um mistério pequeno, quase doméstico, quando um garoto some, uma cidade para, e a infância vira terreno de guerra. Dez anos depois, o desfecho confirma o que a série insinuava desde 2016: o sobrenatural sempre foi a forma que os Duffer encontraram para falar de luto, trauma, amizade como abrigo e do momento em que a juventude descobre que o mundo não “volta ao normal”, ele apenas muda de forma.

A 5ª temporada (com o último capítulo intitulado “The Rightside Up”) fecha esse arco com um gesto claro, de não tenta reinventar a série, e sim amarrar sua mitologia ao coração dos personagens.

Hawkins como personagem: o terror como paisagem emocional


Hawkins sempre foi mais do que cenário. É uma cidade “pequena o suficiente” para o horror ser íntimo. Todo mundo se conhece, todo mundo perde alguém, toda rua vira memória.


A série filma Hawkins como um lugar de rotina americana (subúrbio, shopping, escola, rádio local) perfurado por um abismo, e isso dá à cidade um papel dramático. Ela é o corpo onde o trauma aparece.

No final, quando o conflito deixa de ser “uma ameaça” e vira “uma cicatriz”, Hawkins finalmente se comporta como um personagem que atravessou a história. Não há apenas destruição, há o pós, o silêncio depois do barulho, a sensação de que a cidade inteira amadureceu à força. É aí que o desfecho acerta, pois em vez de só vencer o monstro, ele pergunta o que sobra quando a adolescência acaba.

Mitologia e payoff: quando a série decide que o afeto é arma


A temporada final tem uma escolha narrativa que é, ao mesmo tempo, corajosa e fiel. O clímax não é resolvido por “lógica de lore” apenas, ele é desvendado por vínculos.

O texto oficial do próprio material da Netflix descreve o eixo do confronto final assim: o Mind Flayer é derrotado; Eleven chega perto de “encerrar” Henry/Vecna; e é Will quem cria a brecha decisiva ao conseguir sobrepujá-lo por um instante, permitindo que Eleven finalize a vitória empurrando o corpo de Vecna contra uma estrutura (“spire”).

Isso é mais do que mecânica de batalha, é a série reafirmando que Will (o “gatilho” de tudo) não podia ser só vítima ou antena do mal até o fim, ele precisava ser agente do encerramento. Dramaturgicamente, faz sentido: Stranger Things começou com Will desaparecido e termina com Will interferindo no destino.

As atuações: o elenco cresce com o público


O maior trunfo de Stranger Things sempre foi o casting, principalmente porque a série exige que seus atores sustentem dois registros ao mesmo tempo: nostalgia pop e dor real.

  • Millie Bobby Brown (Eleven) fecha a jornada sem virar super-heroína genérica. O final a mantém numa zona difícil. Poder e fragilidade convivem, e a série não transforma tudo em vitória “limpa”. Há, inclusive, discussões públicas sobre um grau de ambiguidade no destino imediato da personagem.

  • Noah Schnapp (Will) ganha o que a série devia a ele: presença dramática que não depende de ser “o alvo” do Upside Down. A intervenção dele no final é o tipo de payoff emocional que reescreve a série inteira para trás.

  • Gaten Matarazzo (Dustin) segue como a alma verbal da narrativa. Humor como defesa, inteligência como sobrevivência. E o desfecho dá a ele um momento de ritual de passagem. Dustin é associado a uma fala pública de encerramento (valedictorian) e a um gesto de memória ligado a Eddie.

  • Caleb McLaughlin (Lucas) e Sadie Sink (Max) carregam o trauma mais “realista” do grupo desde a 4ª temporada. O final, pelo que se descreve, tenta oferecer algum tipo de resolução afetiva para os dois, sem apagar o custo do que aconteceu. 

  • Winona Ryder (Joyce) e David Harbour (Hopper) são o lastro adulto que impede a série de virar parque temático. Quando eles entram em cena, Hawkins volta a ser lar, não só mapa de missão.

Direção e forma: espetáculo, sim, mas com memória

Os Duffer sempre dirigiram a série como uma “enciclopédia afetiva” dos anos 80. Spielberg (o senso de aventura), Carpenter (o cerco), Cronenberg (o corpo invadido), King (a cidade pequena como microcosmo moral). A 5ª temporada continua nessa chave, mas com um refinamento de direção, que parece mais preocupada em encerrar imagens do que em criar novas.

Isso aparece na maneira como a série fecha portas. O último ano trabalha menos como “temporada de mistério” e mais como estação de despedida, com cenas que existem para concluir relações e devolver os personagens ao mundo.

Referências pop (e por que elas funcionam aqui)


Em Stranger Things, referência não é só piscadela, é linguagem. D&D funciona como metáfora de nomeação do medo. Rádio e fitas são memória física, shopping é o “centro do mundo” adolescente, cinema e música são bússolas emocionais.

A série entende que a cultura pop dos 80 era, para aqueles adolescentes, uma forma de explicar o que os adultos não sabiam nomear. E isso não envelhece, muda a década, permanece o impulso de usar arte para não enlouquecer.

Música: a trilha como narrativa (do synth ao “adeus”)


Se a 4ª temporada foi marcada pelo efeito cultural de Kate Bush, o final tenta uma síntese: fecha o ciclo com música como catarse, não como meme.

O uso de “Purple Rain” (Prince) em momento emocional importante e de “Heroes” (David Bowie) nos créditos finais reforça a ideia de “hino de encerramento”. Funciona porque Stranger Things sempre tratou canção como objeto dramático. A música não “ilustra”; ela salva, marca e despede.

O final: o que ele diz sobre a série inteira


O desfecho escolhe não ser um “twist final” e sim um ponto final temático. O terror pode cessar, mas o custo fica. Ao matar o Mind Flayer e derrubar Vecna com a participação decisiva de Will e Eleven, a série fecha a mitologia sem tirar dos personagens a consequência emocional.

E a última imagem (mais do que qualquer explicação de lore) parece interessada em mostrar quem eles se tornaram depois de atravessar o impossível. A vitória é real, mas é também um adeus à infância, à inocência e ao próprio formato de aventura que a série celebrou.

Onde a série acerta e escorrega


Acertos

  • Consegue manter personagem > mitologia no fim.

  • Entrega payoff emocional para peças-chave (especialmente Will/Dustin). 

  • A trilha volta a ser narrativa, não só “efeito cultural”.

  • Hawkins permanece viva como organismo dramático: o “lar ferido”.


Escorregões

  • Em alguns momentos, a série ainda parece presa à necessidade de “evento” (set pieces longos) quando a força real está nas cenas pequenas.

  • A ambição de fechar muitos arcos pode gerar sensação de checklist em trechos do caminho, mesmo que o destino final seja coerente.


Nota final 9,0/10.

Uma conclusão grande, emotiva e consistente com a essência da série. Stranger Things termina como começou, com crianças encarando o escuro, só que agora entendendo que a escuridão nem sempre some. Às vezes, ela apenas aprende a conviver com a luz 

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